A CASA DA PROFESSORA VISTA POR FORA

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Sendo eu muito sensível aos espaços – dos paisagísticos aos urbanos passando pelos íntimos, e digo isto desde o início para dar mais peso ao que vou apontar seguidamente – a primeira coisa que quero afirmar sobre a Herdade do Freixo do Meio é quanto me sinto acolhida por esta casa, quando aqui estou como voluntária, durante uma semana por mês, desde fins de 2011.

Quando conheci a Herdade em 2007, devo confessar que as construções do monte principal não me agradaram, talvez por não reconhecer em todas elas a volumetria típica da região. Lembro-me de ter comentado isso com o Prof. José Augusto Mourão das vezes que veio comigo e com o Eng. Alfredo Cunhal Sendim por diversas situações.  Mas, uma coisa me agradou: as palavras “escola” e “casa da professora” em letras grandes, quando a sinalética foi introduzida com mais critério e passou a assinalar  destacadamente a memória de antanho, que continua a fazer respirar um modelo microcósmico de propriedade agrícola abastada, simbolizada em torno destas duas construções.  O que vem dar ainda maioir destaque ao projecto primitivo, pois ambas estão localizadas em locais significativos na horizontalidade do conjunto desde a chegada pelo lado nascente, como na posição altaneira quando as olhamos vindo do montado pelo lado poente.

No exterior, sobreleva um jogo invulgar entre público e privado, pois a construção tem duas portas, a este (sol de manhã) e a oeste (sol à tarde): uma dá para o largo fazendo acesso a um corredor para a cozinha, outra para o montado, sendo esta favorecida por uma espécie de varanda escondida, com uma mesa e cadeiras, contígua à sala-de-estar, onde as refeições são ainda mais saborosas, especialmente o pequeno-almoço com sua vista matinal para os sobreiros, pastagens e até uns cavalos pachorrentos; com sorte, calculem, chega a ver-se um Sorraia especial.

A forma como se dá a relação público-privado merece uma explanação: o alpendre da primeira porta favorece o contacto com a comunidade, à sua maneira abriga um lugar que pode servir a tradição, ou seja, como soleira da porta ou banquinhos, onde comadres e compadres, geralmente com chapéus, se aquecem nos meses invernosos ou se refrescam nas tardes estivais, sempre tagarelando numa tonalidade pausada; o alpendre da segunda porta cria um recanto invulgarmente recolhido, como propício à contemplação do montado que começa na planura poucos metros abaixo, dos vermelhos escaldantes de um qualquer pôr-do-sol, e serve adequadamente o estar-só medidativo que as gentes daqui costumam apreciar. E isso  também poderá acontecer, claro, a quem passa por uns dias, regalando-se com esta casa e alimentando-se do “espírito do lugar”.

A presença certeira de ambos os alpendres é crucial para a temperatura geral da construção, pois não se imagina como todas as dependências são frescas no Verão; de facto só começam a aquecer a partir do fim da tarde, quando cai o dia, aspecto que corrobora a tendência alentejana. Mas, não nos iludamos e como não há bela sem senão, apenas a salamandra, com o seu ar acolhedor e a funcionar lindamente, contraria o frio invernal.

As janelas são pequenas e os postigos também se lhes adequam, o que revela como este edificado dos anos 40 seguiu a tradição mediterrânica neste particular.

As paredes brancas, entre formas e materiais que recebemos dos romanos ou árabes e levamos mundo fora, sustentam uma outra presença comum nestas terras, uma chaminé com boa tiragem, mas que não prima pelo desmesurado, como é frequente tantas vezes por aqui. Como ainda uns arredondados, os tais que me chocaram primeiramente, mas que acabo por saborear, através da concepção + traço do Arquitecto Virgílio Leal da Costa. O apreço pelo arquitectónico e seus estilos requer atenção, sem dúvida,  e às vezes precisa de um tempo para interiorização. No caso, pasmo, se de quando em vez me levam a viajar para um qualquer toque, onde Niemeyer prevaleceu.

As fotos servem para mostrar como o óbvio merece ser falado e reflectido, e nisto relembro Roland Barthes naturalmente.

E, posso assegurar que, mal vem o sono, todas estas imagens emblemáticas, misturadas com o silêncio, tornam o descanso e o sonho bem melhores.

ana luísa janeira

JANEIRO 2013

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16 Responses to “A CASA DA PROFESSORA VISTA POR FORA”


  1. 1 ana luísa Janeiro 26, 2013 às 7:58 pm

    ———- Mensagem encaminhada ———-
    De: José Carlos Marques
    Data: 26 de Janeiro de 2013 à13 13:45
    Assunto: Re: NaturaMeio1
    Para: Ana Luísa Janeira

    Viva
    Que belo blogue e que belo trabalho! Parabéns!
    Vai em anexo algo que interessa a esse trabalho (mas eu sei que já não compras livros, é só para veres e redifundires se tiveres paciência).
    Bj
    JCM

  2. 3 ana luísa Janeiro 26, 2013 às 8:05 pm

    Há muitos anos que sigo a “produção” da Ana Luisa sobre espaços. A sua profunda sensibilidade em relação à natureza/meio/vivências é, para mim, a sua “imagem de marca”. Recordo, como se fosse hoje, os passeios que demos nos jardins de Montréal, nas animadas ruas da cidade de Québec ou a aventurosa chegada ao Parc da Mauricie…com Adelaide, FE e JP!!!!!

    Manuela Ferreira

  3. 4 ana luísa Janeiro 27, 2013 às 7:45 am

    Obrigada ana luísa
    Gostei muito de ver e de ler
    Irei telefonar em breve
    beijs
    Rosa Alfacinha

  4. 5 minhaultimaula Janeiro 27, 2013 às 10:19 am

    ———- Forwarded message ———-
    From: Irene Fonseca
    Date: 2013/1/27
    Subject: Re: NaturaMeio1
    To: Elisete Silva

    A casa da professora tem o habitar das suas palavras límpidas, caiadas da brancura da sua escrita…E então, vejo é um espaço transparente,sem dentro ,nem fora…
    E digo, à soleira da porta, um obrigado pela partilha…
    Beijo

  5. 6 Elisete Alves Janeiro 27, 2013 às 7:31 pm

    Mereces os meus parabéns não só por este trabalho cujo texto li com imenso interesse,mas por tudo o que tens feito no campo das Ciências.Aparece,tenho saudades.Bj.

    • 7 ana luísa Janeiro 28, 2013 às 6:48 am

      Obrigada Elisete.

      Parabéns pelos progressos informáticos… quem te viu e quem te vê. Muito me alegras, podes crer.
      Como sempre, és a amiga que sempre energetiza os meus projectos. Quando vens conhecer o Freixo?

  6. 8 minhaultimaula Janeiro 28, 2013 às 6:43 am

    ———- Mensagem encaminhada ———-
    De: Elisio sopas
    Data: 27 de Janeiro de 2013 à45 17:14
    Assunto: Re: NaturaMeio1
    Para: Ana Luísa Janeira

    Anita
    Muito obrigado pelo teu mail . Vejo que não só o Pim, mas também tu aprecias a arquitectura e os espaços envolventes! Os vossos Pais muito gostariam de constatar isso. Filho de peixe …
    Um abraço

  7. 9 Janeiro 28, 2013 às 9:17 am

    Obrigada por partilhar.
    A sua escrita pelos lugares por onde passa envolve-nos de tal maneira que também sentimos que fazemos parte dele, pelo menos comigo.
    Um beijinho, Zé

  8. 10 Domingas Cruz Janeiro 29, 2013 às 1:23 am

    Bonita apresentação dum espaço cheio de lições da Professora Ana. Parabens!

  9. 11 naturameio Janeiro 29, 2013 às 3:52 pm

    Hola Querida amiga!
    Preciosa la página, he visto algo, hay mucho para ver!
    Un abrazo
    Celina Lértora

    http://www.fepai.org.ar/
    http://fundarte2000.fepai.org.ar

  10. 12 naturameio Janeiro 30, 2013 às 5:21 pm

    Olá Anita, que bela descrição da Casa da Professora.
    Um abraço, Xinha

  11. 14 Marcas Das Ciências Lisboa Janeiro 30, 2013 às 5:37 pm

    Se quiser usufruir da CASA DA PROFESSORA
    na HERDADE DO FREIXO DO MEIO

    contactar para reservas:
    Tel: (+351) 93 843 46 08
    E-mail: visitas@herdadedofreixodomeio.com

    • 15 Aida Ferreira Fevereiro 3, 2013 às 4:08 pm

      Conheço a Herdade, mas a casa da professora melhorou e apetece-me ir ver e sentir tudo o que descreves. A tua presença e reflexão ajudam a não perder nada. Brevemente estarei por aí.
      Abraço,
      Aida Ferreira


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