Natureza e eficiência na Herdade do Freixo do Meio

(observar e construir)

O dispositivo ecotécnico entrelaça os dois principais componentes da mundialização, a técnica e a economia. Em tempos de desesperadas tentativas neoconservadoras para reafirmar os antigos valores, os valores em cena são claramente enunciados como sustentabilidade social e ambiental, justiça social e abandono da filosofia industrial. O universal é um conceito da razão. Pretender proclamar determinados valores como universais é colocar-se num lugar fictício, recorrendo a Deus, à Natureza, à Ciência, etc. Afinal, aquilo a que chamamos “a nossa razão”, escreve I. Stengers, está sobrecarregado de simplificação, de resumos, de ignorância e de desprezo”. Tradicionalmente, a natureza é o lugar da exterioridade. É na natureza que as sociedades pré-modernas procuravam a fonte e a legitimidade dos limites que elas se davam. Rousseau é o primeiro a reconhecer que “este estado de natureza” onde o homem era bom, nunca existiu. A natureza rousseauniana é, fundamentalmente, uma natureza artificial. A política moderna substituiu a natureza pela vontade humana. Não admira que o império da técnica tenha feito desaparecer a ideia tradicional de natureza como exterior ao mundo humano. Nada ilustra melhor isto do que a obsolescência da noção de catástrofes naturais. Na história do destino dos objectos, a natureza foi sempre utilizada como valor supremo: “É de madeira natural”. A natureza parece sempre ultrapassar a cultura, tomando um lugar ontológico, como se figurasse a origem das origens. É verdade que a ideia de natureza tem a vantagem de limitar o relativismo dos valores culturais, fazendo-nos acreditar na universalidade ahistórica do valor. De facto, os valores culturais mudam de um país a outro, modificam-se com o tempo, deformam-se por efeito do sincretismo, enquanto a ideia de natureza permanece imutável, transcende as metamorfoses temporais e impõe-se como o sinal absoluto da sua própria perenidade. Há uma perversão que salta à vista: quando se faz referência à ideia de natureza quer-se significar a ultrapassagem da ideologia e, de facto, naturaliza-se aquilo que continua a ser ideológico. A natureza não é ainda uma interlocutora que se sente à mesa connosco e interpele as nossas intervenções técnicas. A natureza, que já não é a força majestosa diante da qual nos inclinaríamos, continua a ser uma força inatacável. Como escreve Sloterdijk, “o homem é um peregrino que atravessa uma natureza majestosa que continua absolutamente fora dos nossos ataques”.

Concebe-se a Herdade do Freixo do Meio como um objecto multimodal que induz problemáticas passíveis de estudos conducentes ao alargamento de temáticas correntes em trabalhos académicos, pelo que este tipo de relação empresa/universidade pode ligar realidades aparentemente desconexas e de cuja articulação muito pode beneficiar a formação.

Trata-se, num primeiro momento, de cartografar a natureza dos factos e dos problemas que necessitam de uma investigação a ser desenvolvida, seguidamente, no quadro de ferramentas científicas e segundo diferentes abordagens disciplinares. Ao lado de uma fundamentação teórica, envolvendo o universo conceptual que estrutura o “espírito” da Herdade, outras abordagens do conhecimento e das práticas devem ser feitas, de modo a obter uma percepção global e prospectiva, que incentive a estratégia a seguir e as parcerias a fomentar pela empresa.

O resultado desta primeira abordagem deverá conduzir a uma listagem de prioridades e a um mapa de intervenções, e bem assim a formas de concretização de acordo com carências prioritárias..

A criação de novos produtos – aquilo de que se fala (os discursos) e aquilo que se mostra (a musealização do património, o edificado, as práticas) -, interrogará a eficiência dos objectos e métodos outrora utilizados, no sentido de questionar expressões recentes do sustentado ou modelos vigentes nas relações trabalho/comunidade e nos recursos humanos, privilegiando a importância de pensar a identidade do montado, dentro de uma configuração inovadora e ao serviço do planeamento futuro..

Na medida do possível, serão criadas escolas-oficinas para resolver situações concretas, de modo a que as soluções encontradas equivalham a meios de aprendizagem para os actores envolvidos (a requalificação dos moinhos poderá vir a acolher programas de formação em construção tradicional, vertente produtiva muito abandonada no Alentejo e indispensável para a requalificação dos montes em ruínas, inclusive na própria Herdade, vg).

[1] Isabel Stengers.

[2] Jean-Pierre Dupuy.

[3] Peter Sloterdijk.


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